10/09/2018 iGUi Ecologia 0Comment

O Brasil é imenso!!!! Você já deve ter ouvido essa frase muitas vezes… Mas depois que eu entrevistei a Bióloga Natalia Camps Pimenta eu realmente pude notar que, apesar de ser brasileira, eu não conheço meu próprio país e posso afirmar que a maioria de nós também não conhece….

O local de trabalho da Natalia não é em um escritório e ela não pega ônibus, metro e nem vai de carro trabalhar! Ela trabalha nesse quadradinho no mapa abaixo e para chegar lá são dois dias de barco de São Gabriel da Cachoeira no Amazonas.

Mapa das cidades do Brasil

Nossa entrevista foi realizada por telefone, Natalia estava em São Gabriel e fomos interrompidas várias vezes pelo fraco sinal de celular. Nossa conversa foi em relação ao trabalho publicado na revista internacional PloS One “Differential resilience of Amazonian otters along the Rio Negro in the aftermath of the 20th century international fur trade” (Resiliência diferencial das ariranhas amazônicas ao longo do Rio Negro no resultado do comércio internacional de peles do século XX).

Para desenvolver esse trabalho, realizado na Terra Indígena do Alto Rio Negro, foi necessário um prévio contato com os indígenas e para isso houve uma conversa com as federações indígenas e com a FUNAI e, outra para buscar autorização das comunidades, para isso Natalia ficou 20 dias visitando cada aldeia indígena, solicitando autorização das lideranças para desenvolver a pesquisa e conhecer o local de estudo. Na coleta das amostragens ela ficou 45 dias em terra indígena, junto com um pesquisador indígena que a acompanhou durante toda a pesquisa. E como cada aldeia tem uma área de uso determinada e cada área tem sua liderança, ela teve que pedir para cada aldeia indicar um representante da comunidade para a acompanhar nessas áreas. Além disso, tinha o prático, morador da região que conhece muito a região e a levou para todos os lugares.

A logística não foi fácil, a alimentação somente não perecível, o combustível tinha que ser enviado antes, pois no barco que viajam não é seguro levar tudo de uma vez só. Na aldeia ela dormia na casa de uma família, nos centros comunitários ou na escola, sempre disponibilizavam um lugar para ela ficar.

Porém o mais interessante disso, foi que a pesquisa foi demandada pelos jovens indígenas da etnia Baniwa. Eles observaram o retorno dos animais, após um longo período desaparecidas por conta da caça comercial na região, e ficaram curiosos a respeito destes animais pois apenas os conheciam por histórias contadas pelos “velhos”. O retorno das ariranhas ao território dos índios Baniwa foi apresentado em outra publicação na revista internacional Biological Conservation “The return of giant otter to the Baniwa landscape: A multi-scale approach to specie recovery in the middle Içana river, Northwestern Amazonia”.

As ariranhas são conhecidas pelos índios Baniwa como pajé das águas. Elas se alimentam muito de peixes, o que as tornam um indicador de recurso pesqueiro na região, ideal para se discutir o manejo de pesca dos lagos, criar acordos de pesca, criar áreas de preservação, assim como áreas de possível pesca.

A ariranha foi o animal mais impactado pela caça permitida na região, pois são animais sociais, monogâmicos (um só parceiro), animais territorialistas, só um casal que é reprodutivo no grupo e vocalizam, sendo fácil de identificar, quando acha um integrante, acha todos. Isso a diferente da lontra, que é solitária e pode adquirir hábitos mais noturnos.

No trabalho da Natalia ela teve que entender a caça e entender como são e estão os ambientes que as ariranhas estão agora. Por que elas preferem alguns lugares aos outros, segundo Natalia “1/3 dos ambientes que amostramos não tinha sinal de ariranha, o que mostra que é um começo de uma recuperação da população residente. Conseguimos identificar elas através de indícios, pois elas formam paragens, que são locais de interação dos grupos, formam as latrinas, onde defecam, formam as tocas, onde elas dormem e as pegadas, além da visualização direta. Além de amostragem local, como: transparência e profundidade da água, declividade dos barrancos e tipo de solo para construção de abrigos. Utilizamos paralelamente imagens de satélite para entender melhor os locais onde elas estão, tentando estabelecer uma classificação da paisagem. E, nessa tentativa de buscar quais os ambientes que podem ser interessantes para esses animais, conseguimos estabelecer sua preferencias, como: ambientes com formação de barrancos, pois conseguem construir suas tocas e que estejam conectados a outros copos de água, que servem como canais para elas voltarem aos ambientes que viviam antes. A profundidade da água também é um fator importante, facilita a pesca das ariranhas pois quanto mais raso mais fácil a captura de peixes.”

Segue abaixo algumas fotos que ilustram esse estudo:

Natalia Camps Pimenta

Formada em ciências biológicas pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP campus Rio Claro) e mestre em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Foi bolsista do Museu Paraense Emílio Goeldi e do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Ao longo de sua carreira tem focados em estudos de campo que buscam unir métodos de pesquisa de ecologia animal com aspectos sociais, econômicos e antropológicos de populações tradicionais da Amazônia em pesquisas aplicadas para a conservação da fauna silvestre. Atualmente é analista de pesquisa intercultural do Instituto Socioambiental em São Gabriel da Cachoeira, Amazonas.