15/03/2016 iGUi Ecologia 0Comment

Neste mês de janeiro, conversamos com Cristina Bonfiglioli, professora e pesquisadora da USP, sobre algumas questões relacionadas à realização da vigésima primeira Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (COP21), entre 30 de novembro e 11 de dezembro de 2015, em Paris, na França.

O Acordo de Paris é um tratado no âmbito da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC – sigla em inglês de United Nations Framework Convention on Climate Change), que rege medidas de redução de emissões de gases de efeito estufa, dentre eles, o dióxido de carbono (CO2), com previsão de entrada em vigor a partir de 2020. O acordo foi negociado durante a COP-21 e aprovado em 12 de dezembro 2015. Os objetivos do acordo são:

  • Assegurar que o aumento da temperatura média global mantenha-se em no máximo 2°C acima da temperatura média do período pré-industrial, ou seja, o período anterior à Revolução Industrial (1850), reconhecendo que isto vai reduzir significativamente os riscos e impactos das alterações climáticas, algumas delas já hoje em curso;
  • Aumentar a capacidade de adaptação aos impactos adversos decorrentes das alterações climáticas, especialmente em países pobres e insulares, permitindo a reestruturação do sistema climático global e o desenvolvimento de baixas emissões de gases do efeito estufa (gases produzidos pela queima de combustível fóssil – o petróleo e seus derivados principalmente), de maneira que a produção de alimentos não seja ameaçada;
  • Tornar os investimentos financeiros mundiais consistentes com a transição para uma economia de baixo carbono e com um desenvolvimento econômico baseado na manutenção do sistema climático global, livre de alterações danosas ao planeta e às atividades humanas.

Atualmente desenvolvendo um segundo doutorado sobre as relações entre imagem científica, fotografia de paisagem e o conceito moderno de natureza, e participando como professora convidada no curso de pós-graduação Lato Sensu da ECA-USP sobre Redes digitais, terceiro setor e sustentabilidade, Cristina respondeu às nossas perguntas por e-mail.

  1. Na sua opinião, hoje, qual é o principal vilão para o aquecimento global?
    Na minha opinião, o principal vilão para o aquecimento global é o consumismo, atitude diferente do consumo. Quando consumimos o que não precisamos, somente para atender uma demanda imaginária de status, de poder diante da sociedade, da família, dos amigos estamos envolvidos pelo consumismo. E a publicidade e a propaganda de hoje incentivam essa necessidade imaginária e mentirosa, essa sensação de que você pode ser melhor do que os outros se POSSUIR coisas, como o novo modelo de celular, ou de TV, ou de geladeira ou de carro. O consumismo, entendido como consumo desnecessário por motivo de status, é o grande vilão, pois incentiva o desperdício de tudo o que é produzido ao invés de valorizar a manutenção de equipamentos e de nossos bens, de modo a fazê-los durar mais. “Quebrou ou ficou velho, jogou fora” tem sido o lema de muitos lares. E como cada produto representa uma quantidade de matéria e energia utilizadas pela indústria para a própria produção desses bens, a respectiva emissão de CO2 para essa mesma produção também está implicada. Ter uma vida mais simples, reconceituar a noção de sucesso, de qualidade de vida e de ambição, desatrelando-os da posse das coisas, pode ajudar a reduzir emissões de CO2 no dia-a-dia dos habitantes das grandes cidades. Ainda, é preciso lembrar que como a distribuição de renda no mundo é muito desigual, de acordo com levantamentos recentes, as 500 milhões de pessoas mais ricas no planeta produzem metade das emissões de CO2, enquanto os três bilhões mais pobres emitem apenas 7%. A poluição por gases de efeito estufa tem relação com o nível econômico das pessoas e com sua adesão, maior ou menor, ao consumismo.
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  3. Dentre os países participantes do recém-aprovado Acordo de Paris, quais são aqueles que terão mais “tarefas” para realizar?
    A meu ver, todos os países que assinaram o novo tratado na COP21 em Paris aceitaram IGUALMENTE o desafio de manter o aumento da temperatura média mundial a no máximo 2ºC. Como o acordo prevê a reavaliação das metas de redução de emissão de CO2 propostas por cada nação a cada cinco anos, entendo que todos os países têm tarefas importantes para realizar de modo a cumprir a redução de emissões que propuseram e a melhorá-las continuamente, como sugere a flexibilidade do acordo. Essa é a principal e crucial diferença em relação ao acordo anterior, o Protocolo de Kyoto, cujo prazo de implementação terminou em 2012 e que foi considerado um fracasso, pois não conseguiu o cumprimento das metas acordadas pelos países signatários. O Protocolo de Kyoto fixava metas de redução de emissões de gases de efeito estufa (dentre os quais se destaca sempre o CO2) para países desenvolvidos apenas. Esses países deveriam reduzir as emissões dos gases de efeito estufa em no mínimo 5,2% em relação aos níveis de emissão de 1990, realizando essa redução entre 2008 e 2012. Essa é a definição do termo meta, aliás: reduzir ou aumentar uma certa quantidade em um certo período de tempo. Além disso, o Protocolo de Kyoto era legalmente vinculante, isto é, tinha força de lei internacional, poder que o novo Acordo de Paris não tem. Por outro lado, assim como o Protocolo de Kyoto determinava, o Acordo de Paris também estabelece que só passará a valer (entrar em vigor) quando 55 países ou 55% das emissões de gases estufa estiverem contempladas em termos de redução – ou seja, 55 países assinam o Acordo ou a soma das emissões a serem reduzidas pelos países que assinaram o acordo corresponde a 55% das emissões totais de todos os países. O IPCC espera que isso aconteça até 2020, ou seja, há um prazo a ser cumprido. Ainda, aquela diferença que havia no Protocolo de Kyoto, de apenas países listados no Anexo I (lista de países desenvolvidos) serem obrigados a se comprometer com redução de gases estufa, desapareceu nesse novo acordo. Países em desenvolvimento como Brasil, China, México, Argentina e Índia não receberam metas de redução no Protocolo de Kyoto – foram listados no Anexo II -, ainda que fossem emissores de gases estufa. O que o Acordo de Paris conseguiu foi incluir igualmente todas as nações do mundo (186 países) nessa missão de redução de gases estufa. Só que cada nação declara, voluntariamente, quanto e como pretende reduzir suas emissões (declaração chamada INDC – Intended Nationally Determined Contributions – Contribuições Determinadas Nacionais Pretendidas) e a cada cinco anos, reavalia sua própria proposta, visando melhorá-la. Isso tornou o acordo mais flexível, mais inclusivo, mas também, mais frouxo e mais dependente da vontade política de cada governo. É importante lembrar, também, que os governos não são donos de empresas da iniciativa privada e que elas precisam ser convencidas ou incentivadas a aderir às metas de redução que cada país propuser. A transição para uma economia de baixo carbono depende disso, de fato. Contudo, o acordo não prevê instrumentos para obrigar os governos, muito menos as empresas privadas situadas em cada território nacional, a cumprir as metas que foram estabelecidas, nem punições estão previstas, caso essas metas nacionais não sejam alcançadas. Haverá apenas um plano do tipo “name and encourage”, ou seja, um sistema de declaração no qual os países declaram as metas e depois relatam o que fizeram e os resultados que obtiveram são tornados públicos, permitindo que cidadãos, ONGs e órgãos nacionais de fiscalização de cada país pressionem politicamente seus governos por melhores resultados.
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    Emissões de CO2 em 1990 e 2012. Fonte: EU Edgar database – European Union Emission Database for Global Atmospheric Research (Via Wikipedia).

     

  5. Quando falamos no aumento da temperatura média, é possível que alguns ecossistemas sofram mais impactos do que outros? Por quê?
    Não sou especialista nesse tema, mas de modo geral, o planeta todo sofre: áreas áridas, onde há pouca chuva, podem ficar mais secas; outras áreas, nas quais há muita chuva, por exemplo, podem receber mais chuva ainda – enfim, eventos climáticos extremos – enchentes, secas, vendavais, furacões – começam a ocorrer com maior frequência e intensidade em todo o mundo e isso prejudica não apenas as atividades humanas, mas também a sobrevivência de espécies animais e vegetais em vários locais do planeta. Plantas e animais mais suscetíveis, isto é, mais sensíveis a pequenas alterações climáticas, são os mais rapidamente afetados. Há pererecas e fungos na Mata Atlântica, corais na Austrália, pinguins na Antártica e ursos no Ártico que podem sentir mais violentamente em seus habitats as alterações decorrentes do aumento da temperatura média do planeta. Lembrando que a temperatura média da Terra gira em torno de 15ºC, portanto dois graus a mais na média da temperatura é um aumento considerável. Pense num dia em que o ar do seu ambiente de trabalho salta de 15ºC para 17ºC.. Precisamos ter em mente também que a divisão do planeta em ecossistemas é um modo didático que inventamos para compreender as diferentes interações entre meio físico e seres vivos. Mas em termos climáticos, não há divisões físicas – ainda que possuam trajetórias mais ou menos definidas, as massas de ar são capazes de viajar o mundo todo, transportando umidade e poluentes aos diversos biomas do planeta. E é exatamente esse movimento das massas de ar que é drasticamente afetado com o aumento da tempratura média global.
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  7. No Brasil, firmamos em Maio de 2015, acordo com o grupo industrial espanhol Duro Felguera para a construção de usinas termoelétricas. Qual é a sua opinião sobre isso? Não seria mais interessante, financeiramente e ambientalmente, ampliarmos a utilização das energias alternativas, como a eólica ou a solar?
    Em termos de política pública para a geração de energia em situações de emergência, como a decorrente do período de escassez de água que experimentamos há quase dois anos aqui no Estado de São Paulo, parece fazer sentido termos usinas termoelétricas movidas a combustíveis fósseis (e que, por isso, emitem gases de efeito estufa) para que possam nos socorrer. Não sou estudiosa da área, mas penso que é preciso investir em uma matriz energética com volume de produção e distribuição capazes de atender à demanda por eletricidade da indústria e da população do nosso país. O Brasil tem tradição no uso de grandes hidrelétricas, que causam, aliás, grandes transtornos ambientais e sociais, especialmente durante sua construção, mas que ainda respondem por mais de 60% da produção energética do país, e nos biocombustíveis – em especial o álcool (etanol) produzido a partir de cana-de-açúcar (imagine, dominamos técnicas de plantio de cana desde o Brasil Colônia!). Uma saída tem sido o investimento em pequenas usinas hidrelétricas, cuja construção causa menos transtornos ambientais e sociais. É claro que também seria mais interessante, especialmente do ponto de vista ambiental, ampliarmos a utilização de fontes de energia alternativa, como a eólica ou a solar. Existem evidentes condições territoriais e climáticas para utilizá-las – período de insolação amplo, para a geração de energia solar, e território plano, pouco montanhoso, para a implantação das grandes estruturas de geração eólica, que chega hoje a pouco mais de 5% da produção da eletricidade nacional. Penso que há um pouco mais de incentivo ao desenvolvimento de energia eólica, mas, pelo que vejo, não há políticas públicas eficientes de incentivo ao desenvolvimento de energia solar. Há frequentes reclamações do setor energético de que os custos para a geração de energia solar são muito altos. Por isso mesmo o desenvolvimento de incentivos por parte do governo precisa ser feito. Contudo, acho mais grave se o país decidir investir pesadamente em termelétricas nucleares, cujo risco de contaminação para o ambiente e para o homem é muito mais grave, com danos persistentes e catastróficos, ainda que sejam termelétricas que não emitam gases de efeito estufa. Na comparação, ainda penso que as termelétricas nucleares são muito mais perigosas!
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  9. Com a escassez hídrica, o uso das termoelétricas tornou-se mais recorrente. Isso pode ser considerado como um ciclo causado pelo aquecimento global?
    Bom, primeiro é preciso pensar a que escassez hídrica estamos nos referindo. Há uma escassez hídrica que não depende apenas do ciclo natural da água ou das condições climáticas. Depende da relação de desperdício que o cidadão tem com a água que utiliza diariamente. Água potável nas grandes cidades não é a água da chuva. A água que usamos para lavar roupa, tomar banho, cozinhar e beber é agua PRODUZIDA por estações de coleta e tratamento de água. Há gasto de energia e tempo para essa produção. As pessoas precisam usar a água potável que chega em suas casas com maior comedimento, cuidado, cautela. A água que vai pelo ralo demora muito mais tempo para voltar à sua casa que a água da chuva, que a gente não bebe. A água da chuva que cai sobre uma cidade como São Paulo literalmente lava o céu: carrega com ela toda a poluição que está suspensa no ar e a leva para os rios. Agora, a água que movimenta as hidrelétricas realmente é dependente de condições climáticas favoráveis para se acumular e girar as turbinas. Quando as represas estão sem água penso que é bom saber que teremos energia elétrica, ainda que gerada por termelétricas à carvão, diesel ou gás. Se tivéssemos mais investimentos em eólica e solar, talvez precisássemos de menos termelétricas movidas a combustíveis fósseis para suprir energia em situações de emergência como essa decorrente da escassez hídrica nas hidrelétricas. Não sei dizer se se trata de um ciclo de escassez hídrica decorrente das mudanças climáticas apenas, pois não sou estudiosa do tema, mas além das alterações climáticas decorrentes do acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera é preciso considerar a intensificação de fenômenos climáticos cíclicos como El Niño e La Niña que também interferem no comportamento das chuvas em todo o globo terrestre e cuja periodicidade e intensidade podem ser afetadas pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas.

 

Cristina Bonfiglioli é Bacharel em Ciências Biológicas e doutora em Ciências da Comunicação, com pesquisa sobre a relação entre o texto do Protocolo de Kyoto e o fotojornalismo que tenta representá-lo. Foi Coordenadora de Campanha do Greenpeace Brasil entre 1997 e 2001. Atua como professora universitária e pesquisadora nos temas discurso ecológico e imagem científica.