31/05/2018 iGUi Ecologia 0Comment

A nossa entrevistada, a bióloga Luísa Haddad, vai nos mostrar um novo conceito de alimentação, plantio e o que podemos fazer no nosso dia-a-dia para uma vida mais saudável em harmonia com o meio ambiente. Confira….

Qual desafio sócio ambiental a sua organização pretender resolver? Qual é a escala desse desafio?

Atuamos nos desafios relacionados aos hábitos alimentares que comprometem a saúde e bem-estar dos brasileiros.
De acordo com o Ministério da Saúde:

  • Mais da metade dos brasileiros está acima do peso: a população com sobrepeso passou de 42,6% em 2006 para 53,8% em 2016, estando presente em mais da metade dos adultos que residem em capitais do país. (pesquisa Vigitel 2016);
  • Obesidade cresceu 60% no Brasil nos últimos 10 anos: passou de 11,8%, em 2006, para 18,9% em 2016, atingindo quase um em cada cinco brasileiros. (pesquisa Vigitel 2016);
  • Entre jovens brasileiros de 18 a 24 anos, a prevalência da obesidade entre os jovens de 18 a 24 anos de idade quase dobrou, passando de 4,4% em 2006 para 8,5% em 2016;
  • Entre os adolescentes brasileiros de 12 a 17 anos, 33,5% estão com sobrepeso, sendo que 8,4% estão obesos (Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes, ERICA -2015);
  • O excesso de peso, junto com o sedentarismo e a má alimentação, estão entre os principais fatores determinantes das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) como diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares, como o Acidente Vascular Cerebral (AVC). De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a obesidade está relacionada à maior probabilidade de 13 tipos de câncer;
  • Apenas 35,2% da população adulta consome frutas e hortaliças regularmente – (ao menos 5 dias por semana) (pesquisa Vigitel 2016);
  • 24,4% da população adulta consome a quantidade de frutas e hortaliças recomendada pela Organização Mundial da Saúde (400g ou mais por dia; ou ao menos 5 porções diárias) (pesquisa Vigitel 2016);
  • O consumo de refrigerante e balas por jovens entre 12 e 17 anos supera o de frutas, verduras, hortaliças e suco natural (ERICA – 2015).

O Guia Alimentar para a População Brasileira foi desenvolvido pelo Ministério da Saúde como documento oficial que aborda os princípios e as recomendações de uma alimentação adequada e saudável. Essas diretrizes são desenvolvidas com base em recomendações da Organização Mundial da Saúde e têm como propósito apoiar a educação alimentar e nutricional e subsidiar políticas e programas nacionais de alimentação e nutrição.

O documento destaca os principais obstáculos que podem dificultar a adoção das orientações, em aspectos de informação, oferta, custo, habilidades culinárias, tempo e publicidade. Entre esses desafios, o foco do Pé de Feijão é combater a falta de informação sobre os efeitos dos alimentos na saúde e bem-estar, além do desconhecimento de habilidades culinárias, por meio da educação alimentar e recomendações que possam se adequar ao dia a dia de cada um.

O projeto tem como um dos objetivos a realização de hortas nos espaços ociosos nos topos de edifícios. Quantas hortas vocês conseguiram implantar?

Até hoje foram implantadas 11 hortas, sendo 2 delas nos topos de edifício e mais de 10 mil pessoas impactadas com as ações educativas.

É legal dizer que somos um negócio de impacto que tem como propósito transformar a relação das pessoas com a comida. As hortas urbanas são como a nossa sala de aula, nosso palco e ferramenta de trabalho. Elas podem ser no topo dos prédios, mas também em qualquer outro espaço ocioso, uma vez que o mais importante não é onde ela está, mas sim como iremos utilizá-la como uma peça chave de sensibilização, ocupando o espaço urbano, servindo de exemplo para que as pessoas vejam que é possível produzir comida de qualidade em qualquer lugar.

Para isso, acreditamos na experiência e no poder da informação sobre os alimentos e seus ciclos, do cuidado individual e com os outros por meio da alimentação e da autonomia nas escolhas que nos trazem bem-estar e saúde.

Como é realizada a compra, manutenção e destinação desses alimentos?

As hortas que estão ativas com oficinas frequentes de educação alimentar e ambiental recebem cuidados semanais ou quinzenais.

Os alimentos são doados para as organizações que hospedam a horta. Em cada caso, é um público que recebe gratuitamente o alimento, por exemplo:

  • • Empresas que implantaram a horta como um programa de saúde e bem-estar interno disponibilizam os alimentos em colheitas mensais para seus colaboradores, como é o caso da Serasa Experian e da Ellece Logística;
  • • O Instituto Chefs Especiais, que capacita pessoas com Síndrome de Down por meio da gastronomia, hospeda uma horta do Pé de Feijão que foi feita em parceria com a Barilla. O Instituto fica com a colheita semanal da horta;
  • • A colheita também pode ser destinada para a comunidade que frequenta a horta e participa das oficinas de alimentação, como é o caso dos SESCs Campo Limpo e Parque Dom Pedro II, em São Paulo.

Outro objetivo é a educação alimentar e ambiental. Como é realizado?

A ideia é do Pé de Feijão é utilizar as hortas para reconectar as pessoas com os alimentos, mas o forte mesmo do negócio é proporcionar experiências práticas e com as informações passadas de forma bem didática, bem lúdica.
Essas experiências acontecem em oficinas sobre diferentes temáticas que atuam como um gatilho, ou pontapé inicial, que motiva as pessoas a comer melhor, as desperta para o autocuidado, para o consumo consciente para que isso se reflita em uma melhora na saúde e bem-estar.

Pode ser um workshop de cozinha afetiva no dia das mães, uma oficina de horta em pequenos espaços e compostagem no dia do meio ambiente, atividades de férias com crianças para reconhecimento dos alimentos, etc. As atividades se encaixam na rotina da organização e despertam as pessoas para temas específicos dentro do ciclo dos alimentos.

Outros exemplos de conteúdos abordados nas oficinas: leitura de rótulos, como escolher as frutas, legumes e verduras, o que pode ser guardado dentro e fora da geladeira, como fazer a alface durar na geladeira por 2 semanas, como aproveitar o alimento de forma integral, cadeia de alimentação no Brasil, o que é colesterol, hipertensão e diabetes, alimentação para gestantes, lanchinhos escolares, desmistificando dietas e alimentos da moda, gordofobia, chás medicinais, PANC = plantas alimentícias não convencionais, agrobiodiversidade: conhecendo milhos e cenouras coloridas, entre outras.

Trabalhamos com uma abordagem acolhedora e que foca mais no que as pessoas podem incluir na alimentação de forma prática e fácil para que esses alimentos ressignificados, aos poucos, tomem o lugar dos ultraprocessados do dia a dia e a pessoa chegue em uma alimentação realmente saudável e equilibrada: com uma rotina alimentar com alimentos mais ricos em nutrientes, em maior quantidade e deixando as exceções como exceções. Nossa abordagem exclui qualquer ditadura de dietas, proibições ou imposições de visões sobre alimentação. Fornecemos informações sobre alimentos, hábitos e seus efeitos sobre nosso corpo e saúde para que cada um possa fazer a melhor escolha para si, sem culpa. Também demonstramos que é possível obter prazer de uma alimentação mais saudável e mais cuidadosa.

Quais são os papeis das oficinas oferecidas por vocês nas empresas?

A principal inovação não é o conteúdo que trazemos, mas sim a forma de passar esse conteúdo. O fato de trazer essa abordagem de olhar para a alimentação partindo da horta e não de uma dieta é uma abordagem inovadora que conecta a pessoa com o alimento mais saudável de forma afetiva, criando um vínculo que estimula o participante a querer comer porque ele foi envolvido no processo e não porque alguém estabeleceu o que é certo ou errado.
A oficina também é um momento de descontração no dia corrido dos colaboradores, aquele momento que eles desestressam e vêm trocar experiências e que funciona como um momento de integração também entre as áreas.
É nas oficinas que os colaboradores sentem a atenção da empresa com a saúde e o bem-estar deles, ela é a materialização desse cuidado.
O retorno que recebemos é que, nas oficinas, ao tornar o aprendizado da educação alimentar e ambiental mais prático, dinâmico e mão na massa, o participante compreende o conteúdo e se sente estimulado a alterar seus hábitos pessoais. Focamos na experiência e no encantamento das pessoas com o que é mais positivo ao entrar em contato com a horta e ao falar sobre alimentação.
Vocês realizaram uma grande horta comunitária na laje da fábrica de criatividade. Como foi a aceitação entre os colaboradores?

Na Fábrica, o projeto foi mais voltado para a comunidade que para os colaboradores. No início foi bem tímido, poucas pessoas vinham, mas depois, com ajuda das redes sociais, começou a vir mais gente e o mais interessante foi que duas das participantes, aos poucos trouxeram toda a família: maridos, irmãs, primas, mães e tias. Ficamos com um programa mensal de oficina lá por 6 meses e colhemos resultados lindos de transformação como no depoimento abaixo:

“…Não como mais na rua, faço minha própria comida, faço mais legumes, mudei meus lanchinhos, inclui mais frutas, granola, mel, tudo por dicas que eu ouvi aqui. Passei a congelar frutas, pequenas mudanças que a longo prazo farão muita diferença para mim.”

Quais são as futuras metas?

Queremos ser referência na transformação positiva de hábitos alimentares e para isso nossas metas ainda são de conseguir ter estabilidade financeira para remunerar bem e manter a equipe motivada. Só isso nos permitirá ter cada dia mais impacto.

Não queremos trabalhar em um modelo freelancer, queremos ter cada vez mais pessoas trabalhando fixa, com segurança e sendo remunerada à altura das qualificações.

Para 2018 queremos fechar 2 grandes projetos, um já está em conversas mais avançadas e agora precisamos correr atrás de mais um! =D

Como foi participar da Green Tech Show? E o que o evento pode contribuir para o meio ambiente?

Foi uma experiência linda! A convite do Nik Sabey, idealizador do projeto Novas Árvores Por aí, nós implementamos atividades educativas no estande do Verdejando, uma iniciativa ambiental da Rede Globo.

No espaço as pessoas passavam por uma conscientização sobre o lixo eletrônico e os impactos do descarte incorreto no ambiente e na nossa saúde e então chegavam para conversar com a gente sobre as soluções:

  1. Plantio de Mini-Floresta: as pessoas tinham a oportunidade de reflorestar um espaço e de aprender que as árvores têm um imenso potencial de descontaminação e de preservação da qualidade do solo, da água e do ar;
  2. Plantio de hortas: as pessoas tinham a oportunidade de aprender a plantar hortaliças em espaços pequenos e de conhecer os pés dos legumes e verduras de perto! Um dos que causavam mais surpresa era ninguém mais, ninguém menos que o orégano, que comemos sempre desidratado e quase nunca vimos a folha fresca;
  3. Compostagem para entender que todos nós podemos reciclar nosso resíduo orgânico dentro de casa. Entender o que diz a Política Nacional de Resíduos Sólidos e como podemos fazer nosso lixo virar adubo.

Na parte educativa que a gente se envolveu, todos os módulos plantados foram doados para escolas que agora terão suas próprias hortas e mini-florestas e o evento bateu recordes de coleta de lixo eletrônico, recolhendo +77 toneladas! Com certeza uma imensa contribuição de conscientização.

Além disso premiou projetos de sustentabilidade desenvolvidos por alunos do ensino médio e demonstrou projetos incríveis desenvolvidos pelos alunos do Instituto Federal.

Luísa Haddad, bióloga há 7 anos atuando como gerente de projetos de sustentabilidade corporativa em várias regiões do país, Luisa decidiu empreender no mundo dos negócios de impacto e hoje lidera o Pé de Feijão, um negócio de impacto que utiliza hortas urbanas como palco para transformar a forma como as pessoa se relacionam com a comida em comunidades e SESCs, escolas e empresas como a Serasa Experian, Barilla e Bonduelle. A ideia foi traduzir o aprendizado da sua trajetória pessoal de mudança de estilo de vida para um programa de saúde e bem-estar que reconecte as pessoas com os alimentos que estão na mesa de forma didática, mostrando que o caminho para comer melhor pode ser uma experiência prática, gostosa e transformadora.