Nossa entrevistada vai nos contar e mostrar, por fotos e vídeos, como é trabalhar em um lugar gelado, na Antartica.

A Dra. Rosalinda Montone, do Laboratório de Química Orgânica Marinha do Instituto Oceanografico da USP possui projetos de pesquisas na Antartica e já esteve em solo antártico por mais 15 vezes.

Ela vai explicar um pouco para nós como é a Antartica, seu trabalho e algumas curiosidades.

1. Qual é o trabalho que a senhora desenvolve na Antártica?
Eu coleto amostras de vegetação, sedimento e carcaças de animais para analisar o fluxo de poluentes persistentes no ambiente antártico.

blocos gelo2. Como é passar 30 dias na Antártica?
A sensação de tempo na Antártica é diferente principalmente no verão quando há claridade na maior parte do dia.

Além disso, ficamos sempre atentos às condições meteorológicas e se perde um pouco a noção de um calendário semanal ou mensal.

Aliás os dias passam rápido demais.

3. Como é o convívio com a natureza de lá?
O convívio é muito bom. Antártica é soberana e o homem aprende a respeitá-la, seja pelo encanto de suas belezas naturais ou pelo frio intenso e ventos fortes.

4. Como é a utilização da água doce na Antártica? E o esgoto?
A água doce vem do degelo formando lagos que abastece as estações na Antártica. Algumas podem utilizar o sistema de dessalinização (retirada de sal da água do mar). Na EACF há um sistema de esgoto dimensionado para ~ 60 pessoas.

5. Houveram alguns momentos inesquecíveis? A senhora poderia nos contar?
O lugar é muito especial e tenho vários momentos inesquecíveis.

Um deles que guardo com carinho foi numa colônia de pinguins.

Após realizar a minha etapa de trabalho teria que aguardar o retorno da equipe trabalhando em pontos mais afastados.

Então fiquei sentada numa pedra apenas observando os movimentos e os sons dos pinguins.

Foi um momento de muita paz e alegria que não consigo descrever em palavras.

Rosalinda Montone
Dra. Rosalinda Montone

Bacharel em Química pela UNESP (1983), mestrado em Oceanografia (1987) e doutorado em Química pela USP (1995). Professora do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo desde 1996. Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Oceanografia Química e Geológica da USP (2003-2011). Chefe do Departamento de Oceanografia Física, Química e Geológica do IOUSP (2009-2011). Vice-presidente da Comissão de Pós-Graduação do IOUSP (2009-2013). Presidente em exercício do Programa de Pós-Graduação em Oceanografia da USP (fev-set/2012). Coordenadora adjunta do Proantar/Rede-2 Gerenciamento ambiental da Baía do Almirantado, Ilha Rei George, Antártica (2002-2006). Vice-coordenadora do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia Antártico de Pesquisas Ambientais (INCT-APA) desde 2009.Tem experiência na área de Oceanografia com ênfase em poluição marinha, atuando principalmente na pesquisa de poluição por esgotos, plásticos e poluentes orgânicos persistentes (POPs) no ambiente marinho e Antártica.

 


Neste mês de junho nossa entrevista estará focada na parte química da água! Como é o processo de escolha de um produto químico para ser utilizado no tratamento da água de piscina e como isso pode ser benéfico para o meio ambiente e para as pessoas que utilizam a piscina?

Durante muito tempo acreditou-se que o cloro era o melhor desinfetante para a água de piscina, mas com muito esforço e dedicação a iGUi conseguiu mudar esse conceito e com essa entrevista vamos entender como isso foi possível.

Conversaremos com a Patrícia Putre, química responsável da iGUi.

  • Como podemos descrever seu trabalho, uma química trabalhando com água de piscinas?

Descrevo meu trabalho como algo gratificante. Sou responsável por orientar da melhor forma nossos clientes para que consigam também repassar de uma maneira bem simples e clara aos seus, como é fácil de se ter em casa uma piscina com água limpa, saudável e o mais importante, sempre muito convidativa a um mergulho. Trabalho também na criação dos produtos para simplificar o tratamento das piscinas com qualidade e na conscientização do desperdício de água ao esgoto, contribuindo desta forma ao meio ambiente.

  • Como é o processo de escolha de um produto químico que será utilizado na água das piscinas?

Existe uma diversidade de produtos e de situações encontradas em água de piscina. A escolha de qual utilizar é muitas vezes indicada pela própria aparência desta, ou muitas vezes pela deficiência não aparente, cujo teste realizado diretamente neste meio irá apresentar.

Água verde, suja, turva, leitosa e com mal cheiro são as situações mais comuns de se ver nesta minha profissão. Muitas vezes é possível acreditar que aquela situação encontrada não tem solução, mas o resultado final que o produto proporciona a piscina é inacreditável.

Água impossível de se tratar não existe, o que existe é a aplicação de produto erroneamente dificultando ainda mais a recuperação desta em um curto prazo de tempo.

  • Como foi o processo da não utilização do cloro na piscina, para utilizar o produto SOLO?

De início foi um pouco complicado. Convencermos nossos lojistas primeiramente que não é somente cloro que trata piscina foi um desafio muito difícil, que confesso ter levado um tempo para conseguirmos. Poucas foram as nossas franquias que aderiram desde o início a idéia com facilidade e mostraram aos seus clientes com extrema certeza o que era o produto SOLO. Poucas foram as lojas, que de início “vestiram a camisa” e acreditaram no produto diferenciado que tinham para trabalhar e explanar ao mercado de piscinas.

Em contrapartida, muitos foram os clientes “pessimistas” que teimavam em dizer que o SOLO não iria funcionar, não iria vender por ser caro e que o consumidor gostava de cloro para tratar piscina. Muitas foram as lojas que de início se negaram a dispor do seu “produto único” até mesmo nas piscinas novas, entregando novamente o nosso produto as desgraças que o cloro propicia, não só ao equipamento, mas também ao banhista e ao piscineiro que está em contato direto com ele.

Com este tipo de atitude do nosso franqueado, que entregavam de maneira óbvia nossas piscinas ao cloro barato da concorrência e conseqüentemente ao fracasso a curto prazo dos nossos equipamentos, foram criadas regras na empresa para que nossas lojas oferecessem e introduzissem o SOLO nas piscinas novas. Tivemos que adotar medidas mais rígidas para alavancar a venda e o conhecimento do consumidor neste produto exclusivo.

SOLO iGUiFoi assim que conscientizamos o nosso lojista a desistir do cloro e apontar com destreza para o produto SOLO em sua prateleira quando um consumidor entrasse na loja. Desta forma, na obrigatoriedade, que o lojista viu o produto funcionar nas piscinas e se apaixonou pela facilidade em fidelizar este consumidor a retornar sempre no seu ponto comercial para comprá-lo e levar em contrapartida um acessório, um aquecimento ou qualquer outro produto que falte para sua piscina.

Hoje em dia, 98% das nossas lojas são fãs do SOLO e apresentam com prazer ao cliente todas as vantagens em relação ao cloro, principalmente quando o principal personagem das piscinas são as crianças, que chegam da escola fissuradas em pular na piscina. O que os pais querem é uma água saudável, agradável para banho e livre dos malefícios que o cloro pode provocar aos seus filhos.

Este produto, só a iGUi tem!!

 

  • Água cristalina de uma piscina é sinal de água limpa? Como podemos caracterizar uma água limpa?

Conforme dizia o antigo ditado “Nem tudo que parece é”. A garantia de que a água está limpa temos a olho nú, porém TRATADA e apta ao banho a aparência jamais poderá garantir. Água limpa é uma coisa, já água tratada é uma outra situação.

Conseguimos identificar se a água está tratada através de testes simples realizados diretamente na piscina que por sua vez, deverá sempre apontar residual de desinfetante (SOLO ou cloro) como resultado.

Água cristalina, porém sem produto desinfetante, pode mascarar diversos tipos de bactérias patogênicas que por sua vez tem como alvo a saúde do banhista. Dermatites, conjuntivites, doenças gastrointestinais, otites e demais anomalias podem estar presentes de forma ofuscada nesta piscina. 

  • Qual a contribuição do seu setor para com o meio ambiente?

A função principal do meu setor é auxiliar e conscientizar nossos clientes de que temos produtos para facilitar a rotina no tratamento de suas piscinas e que deverão sempre zelar pela água que a compõe, evitando assim as conhecidas decantações.

        A cada decantação feita, milhares de litros de água são encaminhados ao esgoto sem reaproveitamento nenhum. Isso é um crime ambiental em se tratando de um bem cujo futuro já se sabe que está comprometido. Uma piscina com água bem tratada em relação a produtos e filtragem, praticamente anula as chances de decantação.

        Devemos pensar que muitos de nossa geração podem não presenciar este caos que a humanidade viverá um dia, mas que entes queridos, como filhos, netos e demais familiares futuros irão passar por tal dificuldade. Toda vez que citamos alguém deste grau de parentesco, uma fatia  é arrancada de nosso coração e de nossa alma.

Sem alimentos temos chance de sobreviver por alguns dias, sem água não.

Patrícia Ap. B. Putre – Graduada em Tecnologia em Processos Químicos e Industrias – São José do Rio Preto. Trabalhou na Usina Cerradinho como Analista físico-química e Microbiologista 2006-2010. De 2010 aos dias atuais atua como Química Responsável na empresa Cedral Química.

Patrícia - iGUi Química
Patrícia Ap. B. Putre – Graduada em Tecnologia em Processos Químicos e Industrias – São José do Rio Preto

Água na água

Neste mês de março nossa entrevista será totalmente voltada a água! Ao entrarmos na piscina, seja para fazer exercício físico ou para diversão gastamos energia, fazemos esforços. E com isso o corpo perde água. Você sabia que 71% do nosso corpo é constituído de água?

A água é o maior componente do corpo humano e possui papel importantíssimo na regulação da temperatura corporal, umidifica os tecidos da boca, olhos e nariz, ajuda a prevenir a prisão de ventre, reduz a sobrecarga dos rins e do fígado através de eliminação de resíduos entre outros benefícios…

Durante a prática de exercícios ou brincadeiras na piscina, há perdas significativas de líquidos e minerais, por isso, uma hidratação adequada é fundamental para que a saúde não seja prejudicada. Pois, a água é mais densa que o ar e exerce uma resistência contínua sobre todo o corpo, sendo quase 14% a mais se você estivesse fora da água.

Assim, para que o organismo funcione bem, é necessário repor a água e sais minerais que se perdem de forma a proporcionar um equilíbrio entre a entrada e a saída da mesma.

Neste mês de março conversaremos com a professora de natação Fátima Moraes para que possamos entender o título desta entrevista!

QUANDO ESTAMOS NA PISCINA FAZENDO EXERCÍCIOS OU BRINCANDO, DEVEMOS TOMAR ÁGUA? PORQUE E COM QUE PERIODICIDADE?

Sim, devemos no caso de não atletas, nos preocupar em ofertar água, sucos especialmente para crianças e idosos, que tentem a desidratar mais rápido que adultos. Necessário observar o clima, em temperaturas mais quentes o corpo desidrata mais rápido, sendo interessante a ingestão de líquido a cada 30 minutos, por exemplo 100ml.

Em se tratando atletas e praticantes de atividades aquáticas, é importante avaliar que não se perde somente líquidos e sim sais minerais e eletrólitos, que prejudicam o rendimento ao longo da sessão de treino. Perdas excessivas, acima de 5% do peso corporal, podem reduzir a capacidade de esforço em aproximadamente 30%, dificultando até a concentração.

A hidratação para o atleta e praticante de natação, deveria se dar:

  • Antes do treino, consumir cerca de 230 a 350 ml de bebida esportiva. Alternando com água e energético em gel. Isso garantirá hidratação e uma fonte alternativa de energia durante a atividade.
  • Durante a natação, manter uma garrafa com bebida esportiva, bebendo alguns mililitros por sessão, a bebida esportiva é mais adequada do que apenas água, por conter carboidratos e proteínas, sendo um combustível melhor.
  • Após o treino consumir uma bebida de recuperação, estudos apontam que a melhor proporção seria carboidrato – proteína 4:1.

ANTIGAMENTE NÃO TOMÁVAMOS ÁGUA DENTRO DA PISCINA POIS DIZIAM QUE PODERÍAMOS TER UMA CONGESTÃO. ISSO É VERDADE?

Não, na verdade a congestão se dá se após consumir um alimento mais calórico e gorduroso de lenta digestão realizar uma prática esportiva, seja na água ou fora dela.

Pois o organismo está com o fluxo de sangue e todas as funções voltadas para a digestão, sendo recrutado para enviar mais sangue para os membros e seus músculos, entrando assim em colapso.

QUAIS SÃO PARA VOCÊ OS BENEFÍCIOS DE SE EXERCITAR NA ÁGUA?

Bem os benefícios são inúmeros. O primeiro em minha opinião é o bem-estar provocado pelo corpo envolto na água, que nos remete a sensação de proteção do útero materno.

Segundo que as inúmeras propriedades físicas da água, cria um ambiente ideal para o desenvolvimento muscular, alongamento, fortalecimento do sistema cardio-respiratório e manutenção da gordura corporal.

Terceiro a FLUTUAÇÃO por exemplo oferece muitos benefícios para quem se exercita na água, ela diminui os efeitos da gravidade e reduz o peso suportado pelo corpo, ou a compressão nas articulações.

Quarto, a PRESSÃO HIDROSTÁTICA afeta os órgãos internos do corpo assim como a superfície, pele, diminuindo o inchaço e a pressão arterial, favorecendo o retorno venoso para o coração. Auxiliando muito no condicionamento dos músculos usados na inspiração e expiração, pois é exercida sobre a caixa torácica.

Quinto, a RESISTÊNCIA é outra propriedade muito importante nas atividades aquáticas, a água é 1.000 vezes mais densa que o ar, assim quando o corpo empurra para frente “ela” empurra para trás. O termo para resistência da água aos movimentos do nadador é chamado de ARRASTO, as forças de arrasto sempre funcionam opostamente a direção do movimento do nadador.

Temos muitas outras propriedades da água já estudadas e comprovadas cientificamente, que podemos relatar em uma próxima oportunidade.

E QUANDO ESTAMOS NO MAR? HÁ ALGUMA DIFERENÇA PARA A INGESTÃO DE ÁGUA?

Não, basicamente observar a temperatura ambiente, que provocará mais ou menos desidratação. Importante observar que se o período de atividade no mar, for superior a 1 hora, se faz necessário o uso de bebidas esportivas, sucos, chás que contenham além de água, carboidratos e proteínas.

Fátima Moraes é graduada em Educação Física pela Universidade de Taubaté, possui pós-graduação em Natação e Atividades Aquáticas pela FMU. Ela é licenciada pela AEA, Aquatic Exercise Association.

Fátima Moraes

 

 

 

 

 


COP21, vamos entender!

Neste mês de janeiro, conversamos com Cristina Bonfiglioli, professora e pesquisadora da USP, sobre algumas questões relacionadas à realização da vigésima primeira Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (COP21), entre 30 de novembro e 11 de dezembro de 2015, em Paris, na França.

O Acordo de Paris é um tratado no âmbito da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC – sigla em inglês de United Nations Framework Convention on Climate Change), que rege medidas de redução de emissões de gases de efeito estufa, dentre eles, o dióxido de carbono (CO2), com previsão de entrada em vigor a partir de 2020. O acordo foi negociado durante a COP-21 e aprovado em 12 de dezembro 2015. Os objetivos do acordo são:

  • Assegurar que o aumento da temperatura média global mantenha-se em no máximo 2°C acima da temperatura média do período pré-industrial, ou seja, o período anterior à Revolução Industrial (1850), reconhecendo que isto vai reduzir significativamente os riscos e impactos das alterações climáticas, algumas delas já hoje em curso;
  • Aumentar a capacidade de adaptação aos impactos adversos decorrentes das alterações climáticas, especialmente em países pobres e insulares, permitindo a reestruturação do sistema climático global e o desenvolvimento de baixas emissões de gases do efeito estufa (gases produzidos pela queima de combustível fóssil – o petróleo e seus derivados principalmente), de maneira que a produção de alimentos não seja ameaçada;
  • Tornar os investimentos financeiros mundiais consistentes com a transição para uma economia de baixo carbono e com um desenvolvimento econômico baseado na manutenção do sistema climático global, livre de alterações danosas ao planeta e às atividades humanas.

Atualmente desenvolvendo um segundo doutorado sobre as relações entre imagem científica, fotografia de paisagem e o conceito moderno de natureza, e participando como professora convidada no curso de pós-graduação Lato Sensu da ECA-USP sobre Redes digitais, terceiro setor e sustentabilidade, Cristina respondeu às nossas perguntas por e-mail.

  1. Na sua opinião, hoje, qual é o principal vilão para o aquecimento global?

Na minha opinião, o principal vilão para o aquecimento global é o consumismo, atitude diferente do consumo. Quando consumimos o que não precisamos, somente para atender uma demanda imaginária de status, de poder diante da sociedade, da família, dos amigos estamos envolvidos pelo consumismo. E a publicidade e a propaganda de hoje incentivam essa necessidade imaginária e mentirosa, essa sensação de que você pode ser melhor do que os outros se POSSUIR coisas, como o novo modelo de celular, ou de TV, ou de geladeira ou de carro. O consumismo, entendido como consumo desnecessário por motivo de status, é o grande vilão, pois incentiva o desperdício de tudo o que é produzido ao invés de valorizar a manutenção de equipamentos e de nossos bens, de modo a fazê-los durar mais. “Quebrou ou ficou velho, jogou fora” tem sido o lema de muitos lares. E como cada produto representa uma quantidade de matéria e energia utilizadas pela indústria para a própria produção desses bens, a respectiva emissão de CO2 para essa mesma produção também está implicada. Ter uma vida mais simples, reconceituar a noção de sucesso, de qualidade de vida e de ambição, desatrelando-os da posse das coisas, pode ajudar a reduzir emissões de CO2 no dia-a-dia dos habitantes das grandes cidades. Ainda, é preciso lembrar que como a distribuição de renda no mundo é muito desigual, de acordo com levantamentos recentes, as 500 milhões de pessoas mais ricas no planeta produzem metade das emissões de CO2, enquanto os três bilhões mais pobres emitem apenas 7%. A poluição por gases de efeito estufa tem relação com o nível econômico das pessoas e com sua adesão, maior ou menor, ao consumismo.

  1. Dentre os países participantes do recém-aprovado Acordo de Paris, quais são aqueles que terão mais “tarefas” para realizar?

A meu ver, todos os países que assinaram o novo tratado na COP21 em Paris aceitaram IGUALMENTE o desafio de manter o aumento da temperatura média mundial a no máximo 2ºC. Como o acordo prevê a reavaliação das metas de redução de emissão de CO2 propostas por cada nação a cada cinco anos, entendo que todos os países têm tarefas importantes para realizar de modo a cumprir a redução de emissões que propuseram e a melhorá-las continuamente, como sugere a flexibilidade do acordo. Essa é a principal e crucial diferença em relação ao acordo anterior, o Protocolo de Kyoto, cujo prazo de implementação terminou em 2012 e que foi considerado um fracasso, pois não conseguiu o cumprimento das metas acordadas pelos países signatários. O Protocolo de Kyoto fixava metas de redução de emissões de gases de efeito estufa (dentre os quais se destaca sempre o CO2) para países desenvolvidos apenas. Esses países deveriam reduzir as emissões dos gases de efeito estufa em no mínimo 5,2% em relação aos níveis de emissão de 1990, realizando essa redução entre 2008 e 2012. Essa é a definição do termo meta, aliás: reduzir ou aumentar uma certa quantidade em um certo período de tempo. Além disso, o Protocolo de Kyoto era legalmente vinculante, isto é, tinha força de lei internacional, poder que o novo Acordo de Paris não tem. Por outro lado, assim como o Protocolo de Kyoto determinava, o Acordo de Paris também estabelece que só passará a valer (entrar em vigor) quando 55 países ou 55% das emissões de gases estufa estiverem contempladas em termos de redução – ou seja, 55 países assinam o Acordo ou a soma das emissões a serem reduzidas pelos países que assinaram o acordo corresponde a 55% das emissões totais de todos os países. O IPCC espera que isso aconteça até 2020, ou seja, há um prazo a ser cumprido. Ainda, aquela diferença que havia no Protocolo de Kyoto, de apenas países listados no Anexo I (lista de países desenvolvidos) serem obrigados a se comprometer com redução de gases estufa, desapareceu nesse novo acordo. Países em desenvolvimento como Brasil, China, México, Argentina e Índia não receberam metas de redução no Protocolo de Kyoto – foram listados no Anexo II -, ainda que fossem emissores de gases estufa. O que o Acordo de Paris conseguiu foi incluir igualmente todas as nações do mundo (186 países) nessa missão de redução de gases estufa. Só que cada nação declara, voluntariamente, quanto e como pretende reduzir suas emissões (declaração chamada INDC – Intended Nationally Determined Contributions – Contribuições Determinadas Nacionais Pretendidas) e a cada cinco anos, reavalia sua própria proposta, visando melhorá-la. Isso tornou o acordo mais flexível, mais inclusivo, mas também, mais frouxo e mais dependente da vontade política de cada governo. É importante lembrar, também, que os governos não são donos de empresas da iniciativa privada e que elas precisam ser convencidas ou incentivadas a aderir às metas de redução que cada país propuser. A transição para uma economia de baixo carbono depende disso, de fato. Contudo, o acordo não prevê instrumentos para obrigar os governos, muito menos as empresas privadas situadas em cada território nacional, a cumprir as metas que foram estabelecidas, nem punições estão previstas, caso essas metas nacionais não sejam alcançadas. Haverá apenas um plano do tipo “name and encourage”, ou seja, um sistema de declaração no qual os países declaram as metas e depois relatam o que fizeram e os resultados que obtiveram são tornados públicos, permitindo que cidadãos, ONGs e órgãos nacionais de fiscalização de cada país pressionem politicamente seus governos por melhores resultados.

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Emissões de CO2 em 1990 e 2012. Fonte: EU Edgar database – European Union Emission Database for Global Atmospheric Research (Via Wikipedia).
  1. Quando falamos no aumento da temperatura média, é possível que alguns ecossistemas sofram mais impactos do que outros? Por quê?

Não sou especialista nesse tema, mas de modo geral, o planeta todo sofre: áreas áridas, onde há pouca chuva, podem ficar mais secas; outras áreas, nas quais há muita chuva, por exemplo, podem receber mais chuva ainda – enfim, eventos climáticos extremos – enchentes, secas, vendavais, furacões – começam a ocorrer com maior frequência e intensidade em todo o mundo e isso prejudica não apenas as atividades humanas, mas também a sobrevivência de espécies animais e vegetais em vários locais do planeta. Plantas e animais mais suscetíveis, isto é, mais sensíveis a pequenas alterações climáticas, são os mais rapidamente afetados. Há pererecas e fungos na Mata Atlântica, corais na Austrália, pinguins na Antártica e ursos no Ártico que podem sentir mais violentamente em seus habitats as alterações decorrentes do aumento da temperatura média do planeta. Lembrando que a temperatura média da Terra gira em torno de 15ºC, portanto dois graus a mais na média da temperatura é um aumento considerável. Pense num dia em que o ar do seu ambiente de trabalho salta de 15ºC para 17ºC.. Precisamos ter em mente também que a divisão do planeta em ecossistemas é um modo didático que inventamos para compreender as diferentes interações entre meio físico e seres vivos. Mas em termos climáticos, não há divisões físicas – ainda que possuam trajetórias mais ou menos definidas, as massas de ar são capazes de viajar o mundo todo, transportando umidade e poluentes aos diversos biomas do planeta. E é exatamente esse movimento das massas de ar que é drasticamente afetado com o aumento da tempratura média global.

  1. No Brasil, firmamos em Maio de 2015, acordo com o grupo industrial espanhol Duro Felguera para a construção de usinas termoelétricas. Qual é a sua opinião sobre isso? Não seria mais interessante, financeiramente e ambientalmente, ampliarmos a utilização das energias alternativas, como a eólica ou a solar?

Em termos de política pública para a geração de energia em situações de emergência, como a decorrente do período de escassez de água que experimentamos há quase dois anos aqui no Estado de São Paulo, parece fazer sentido termos usinas termoelétricas movidas a combustíveis fósseis (e que, por isso, emitem gases de efeito estufa) para que possam nos socorrer. Não sou estudiosa da área, mas penso que é preciso investir em uma matriz energética com volume de produção e distribuição capazes de atender à demanda por eletricidade da indústria e da população do nosso país. O Brasil tem tradição no uso de grandes hidrelétricas, que causam, aliás, grandes transtornos ambientais e sociais, especialmente durante sua construção, mas que ainda respondem por mais de 60% da produção energética do país, e nos biocombustíveis – em especial o álcool (etanol) produzido a partir de cana-de-açúcar (imagine, dominamos técnicas de plantio de cana desde o Brasil Colônia!). Uma saída tem sido o investimento em pequenas usinas hidrelétricas, cuja construção causa menos transtornos ambientais e sociais. É claro que também seria mais interessante, especialmente do ponto de vista ambiental, ampliarmos a utilização de fontes de energia alternativa, como a eólica ou a solar. Existem evidentes condições territoriais e climáticas para utilizá-las – período de insolação amplo, para a geração de energia solar, e território plano, pouco montanhoso, para a implantação das grandes estruturas de geração eólica, que chega hoje a pouco mais de 5% da produção da eletricidade nacional. Penso que há um pouco mais de incentivo ao desenvolvimento de energia eólica, mas, pelo que vejo, não há políticas públicas eficientes de incentivo ao desenvolvimento de energia solar. Há frequentes reclamações do setor energético de que os custos para a geração de energia solar são muito altos. Por isso mesmo o desenvolvimento de incentivos por parte do governo precisa ser feito. Contudo, acho mais grave se o país decidir investir pesadamente em termelétricas nucleares, cujo risco de contaminação para o ambiente e para o homem é muito mais grave, com danos persistentes e catastróficos, ainda que sejam termelétricas que não emitam gases de efeito estufa. Na comparação, ainda penso que as termelétricas nucleares são muito mais perigosas!

  1. Com a escassez hídrica, o uso das termoelétricas tornou-se mais recorrente. Isso pode ser considerado como um ciclo causado pelo aquecimento global?

Bom, primeiro é preciso pensar a que escassez hídrica estamos nos referindo. Há uma escassez hídrica que não depende apenas do ciclo natural da água ou das condições climáticas. Depende da relação de desperdício que o cidadão tem com a água que utiliza diariamente. Água potável nas grandes cidades não é a água da chuva. A água que usamos para lavar roupa, tomar banho, cozinhar e beber é agua PRODUZIDA por estações de coleta e tratamento de água. Há gasto de energia e tempo para essa produção. As pessoas precisam usar a água potável que chega em suas casas com maior comedimento, cuidado, cautela. A água que vai pelo ralo demora muito mais tempo para voltar à sua casa que a água da chuva, que a gente não bebe. A água da chuva que cai sobre uma cidade como São Paulo literalmente lava o céu: carrega com ela toda a poluição que está suspensa no ar e a leva para os rios. Agora, a água que movimenta as hidrelétricas realmente é dependente de condições climáticas favoráveis para se acumular e girar as turbinas. Quando as represas estão sem água penso que é bom saber que teremos energia elétrica, ainda que gerada por termelétricas à carvão, diesel ou gás. Se tivéssemos mais investimentos em eólica e solar, talvez precisássemos de menos termelétricas movidas a combustíveis fósseis para suprir energia em situações de emergência como essa decorrente da escassez hídrica nas hidrelétricas. Não sei dizer se se trata de um ciclo de escassez hídrica decorrente das mudanças climáticas apenas, pois não sou estudiosa do tema, mas além das alterações climáticas decorrentes do acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera é preciso considerar a intensificação de fenômenos climáticos cíclicos como El Niño e La Niña que também interferem no comportamento das chuvas em todo o globo terrestre e cuja periodicidade e intensidade podem ser afetadas pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas.

Cristina Bonfiglioli Crédito da foto: Maria Leonor de Calasans
Cristina Bonfiglioli
Crédito da foto: Maria Leonor de Calasans

Cristina Bonfiglioli é Bacharel em Ciências Biológicas e doutora em Ciências da Comunicação, com pesquisa sobre a relação entre o texto do Protocolo de Kyoto e o fotojornalismo que tenta representá-lo. Foi Coordenadora de Campanha do Greenpeace Brasil entre 1997 e 2001. Atua como professora universitária e pesquisadora nos temas discurso ecológico e imagem científica.